Ipupiara: A Terrível Sereia Brasileira

 Em diferentes culturas ao redor do mundo, as águas são morada de mistérios e lendas. No Brasil, um país entrecortado por rios e uma longa costa, as águas também serviam de morada para terríveis bestas do imaginário popular. 

A lenda do Ipupiara, criatura marinha descrita como metade homem e metade peixe, surgiu entre os povos tupis que habitavam o litoral brasileiro. Diferentemente das sereias romantizadas nos contos de fada, os ipupiaras são seres de índole agressiva, que atacavam pessoas, arrancando-lhes partes dos seus corpos.

A palavra "Ipupiara" tem origem no tupi antigo "Ypupîara". Significa "o que mora dentro d'água (ou do rio).

O Ipupiara segundo Valentin Stansel (Séc. XVII). Via Wikimedia Commons.


Relatos dos Ipupiaras no Brasil Colônia

O Padre José de Anchieta mencionou o monstro em 1560 em uma das suas cartas nas quais descreve o povo, a fauna e a flora do Brasil. Segundo relato que ouviu dos índios:

"(...) há outro nos rios, aos quais o chamam Ipupiara, isto é, moradores da água, os quais igualmente matam os índios". 

O padre ainda completa:

"Perto de nós há um rio, habitado pelos Cristãos, o qual antigamente os índios costumavam atravessar em pequenas embarcações, (...), e que muitas vezes eram por aqueles submergidos".

 

Entretanto, o cronista e historiador português Pero de Magalhães Gandavo fez uma descrição ainda mais detalhada da criatura em um incidente ocorrido na capitania de São Vicente em 1564, dando pistas do que realmente era: um animal semelhante a uma morsa ou leão-marinho. O caso sucedeu-se em uma noite, quando uma índia entrou em pânico quando deparou-se com um ipupiara na praia:

"movendo-se de uma parte para outra com passos e meneios desusados, e dando alguns urros de quando em quando tão feios".

O filho do capitão da capitania de São Vicente, Baltasar Ferreira, correu e posicionou-se à frente do animal apunhalando-o no ventre e na cabeça, que chegou a se erguer, apoiando-se pela cauda e tentou atacar Baltasar com as garras e presas, dando urros. 

"e estando assim a par com ele, deu-lhe uma estocada pela barriga (...) deu-lhe na cabeça uma cutilada muito grande".

A ipupiara, que sucumbiu aos golpes, foi levada para o povoado, onde todos puderam observar o animal no dia seguinte.

"Era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas muito grandes como bigodes".

A ilustração abaixo, também de autoria do historiador, demonstra o ataque.

O Ipupiara segundo Pero M. Gandavo (1564). Via Wikimedia Commons.


O Padre Jesuíta Fernão Cardim, nos relatos do Tratados da Terra e da Gente do Brasil (1583-1601), descreve os ipupiaras:

"parecem-se com homens propriamente de boa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, têm cabelos compridos, e são formosas; acham-se esses monstros nas barras dos rios doces".

Cardim também descreveu um incidente ocorrido em Jaguaribe, cidade da Bahia em 1582, quando

"indo um índio pescar, foi perseguido de um, e acolhendo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor para animar o índio quis ir ver o monstro, e estando descuidado por uma mão fora da canoa, pegou dele, e o levou sem mais aparecer".

Outro relato impressionante, registrado pelo padre é o modo de atacar dos ipupiaras:

"O modo que têm em matar é: abraçam-se com a pessoa tão fortemente, beijando-a e apertando-a consigo, que a deixam feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se levam alguns comem-lhes somente os olhos, narizes e pontas dos dedos dos pés e mão, e as genitálias".


Claramente, a lenda da Ipupiara, assim como diversas outras histórias antigas, possui um fundo de verdade. São relatos que nascem de elementos reais (neste caso, mamíferos marinhos) mas que, ao serem difundidos através das gerações, acabam recebendo contornos fantásticos.

Cabe ressaltar que o papel deste blog não é explicar lendas à luz da racionalidade moderna, mas contá-las da mesma forma que os homens que desbravaram o Novo Mundo e os mares inexplorados as contavam: entre o fascínio, o medo e o desconhecido.

Ipupiara segundo segundo Mattheo Francken (1565). Via Wikimedia Commons.


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